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29 de mar. de 2011

MARUJA

Hoje você ocupou meu vazio:
Do estômago sem nhoque.
Da garganta sem voz.
Do pensamento sem razão.
Do coração sem destino.

Tua ausência despertou a memória gustativa
Uma evocação de "zapallitos rellenos" deu sabor à minha vida.
Tua militância foi  a voz da resistência.
A tua razão  estava em números
 místicos  pra acertar a "Quiñela".
O teu destino habita meu coração.

28 de mar. de 2011

de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado
sangrado
de sangue a sangue
Haroldo de Campos in Noigrandes,5)

Catar feijão

1.

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.


Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
(A Educação Pela Pedra)


2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

João Cabral de Melo Neto

Da vez primeira

Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
o mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah!desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Asas da Noite! Asas do Horror!Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Mario Quintana

A Bruxa

Nesta cidade do Rio
De dois milhões de habitantes
Estou sozinho no quarto
Estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
Anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida. E sinto a Bruxa
Presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
E a essa hora tardia
Como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
Que entrasse nesse minuto,
Recebesse esse carinho
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal, calma.
Porém a essa hora vazia
Como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos,
Sei os beijos mais violentos,
Viajei, briguei, aprendi
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras

Mas se tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
Querendo romper a noite
Não é simplesmente a Bruxa.
É antes a confidência
Exalando-se de um homem.

Carlos Drummond de Andrade

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos não perguntam nada.

O Homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade
(Antologia Poética)

A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.

Carlos Drummond de Andrade
(Amor Natural -1930)

27 de mar. de 2011

Soneto para a infidelidade

De tudo, ao meu amor, posto ao relento.
Antes era zelo, hoje é desencanto
 mesmo que Deus dissesse que és santo
Dele não creria mais meu pensamento.

A dor, vivê-la em cada vão momento,
 pra meu horror descobri mais eventos
promessas de amor ditas ao vento
sem pensar sequer nos meus sentimentos

E assim mais tarde, quando eu me curar
 Terei um novo norte, até posso amar
Ou na solidão,  paz de quem a si ama

Eu possa dizer do amor que não tive
Que é mortal, corrompeu minhas entranhas,
Mas é finito: não há mal que perdure.

26 de mar. de 2011

23 de mar. de 2011

RE-TRATO

Eu não tinha esse desejo
Assim agitado,  assim frequente, assim despudorado.
Nem nos olhos esse lampejo
Nem no lábio a sede do beijo.

Eu não tinha essas mãos cobiçosas
marotas frenéticas  buliçosas,
Eu não tinha esse coração
À mostra.

Eu gostei da mudança,
Tão complexa, tão incerta, tão inesperada.
Em que espelho eu achei minha outra face?

Sob o signo


Sagitário – nasci sob essa constelação
O teu sol está em minha casa
Me habitas
 até mesmo quando não estás no zênite.
Arkab e Nunki,
Meu tendão e meu peito,
És tu, meu arqueiro.
Sagitário  – centro da minha constelação

Sem esperança


Quando você chegou foi assim: sem aviso!
Eu que não tinha esperança de amor
Experimentei-o de todas as formas e com o meu jeito
― meu o pensamento, minha coração, meu sexo .

Agora também tem sido assim: sem aviso:
E eu que tinha esperança de amor
Experimentei o sofrimento em todas as suas formas e com todo o meu jeito
― meu  pensamento, meu coração, meu sexo.

Sou assim:
Só sei viver o total!
Com o que me preenche todos os sentidos
Ainda bem que, sem esperar, tive um amor assim.
Esse é o meu jeito:
Sem esperança,
Espero por um amor completo!!!

O Breve instante que estás


Dezoito horas...
Dezoito minutos?
Dezoito orgasmos!!!

No relógio,  outras medidas
Não há como se ter o tempo do outro.
Posso, então, compartilhar
O breve instante que estás...

No virtual da minha cama, no real do computador,
Vivo a alegria do provisório,
Sem certezas,
Sem espera?
Cem ausências...

COMES SEM BEBES

Já te cozinhei meus melhores quitutes:
Coxinha, quibe, pavê.
Me diz agora o que eu faço pra não fritar, a fogo baixo,
Você?

Não sei  o que você pensa dessas suas atitudes:
Tolices?
Maldades?
Como queres que eu tenha saudades,
Se eu te dei mesa farta
E agora vivo de migalhas.

Você diz que pra mim nunca é sobra.
Pensa assim que vc me dobra?
Meu apetite é voraz.
Sinto muito!
Assim não dá, meu rapaz!

debreagem

Quantos beijos cotidianos se secam em minha boca.
E a mão íntima se desalfabetizando da leitura do teu corpo.
Nos enunciados da cama de casal, instaura-se o não-eu, o não-aqui e o não-agora.
Aqui : eu.
Lá: tu.
E agora?

lá e cá

No mundo virtual,
Tô mal!
Na vida,
Perdida!

DES CON(S) Certo

Hoje não acordei.
Abri os olhos, me levantei, fiz café.
Mas não acordei!
O dia tinha sol,
Tinha movimento nas ruas,
Tinha notícias do mundo.
Mas eu não acordei!
Não acordei da minha dor!
Não acordei pelos rogos!
Não acordei para o inexorável!
HOJE não fiz acordos!

ÂNC (S) IA

O meu amor tem toda importância
Apesar das circunstâncias.
Aquela rosa regalada,
Que tu encontraste no caminho,
eu plantei no meu vazio.
Desnuda,
Faz-me eclipse de mar,
Meu amor  tem circunstâncias,
Apesar da importância.